Sobre o TOC

 

Entrevista sobre o TOC Dr Eduardo Adnet

 

 

Qualificar e quantificar uma dor não é algo simples, sendo muitas vezes até mesmo impossível, pois só mesmo quem sente a dor é que pode ter a dimensão exata do seu sofrimento. Todavia, existem determinadas dores as quais são consideradas as piores dores em medicina, as que causam maior aflição, as mais lancinantes. Dentre elas se encontram: A dor do infarto do miocárdio, as cólicas renais, a dor da gota, a neurite herpética, as cólicas biliares e a dor da hipertensão intracraniana. Dentre outras, evidentemente.


Isto estamos dizendo, pois em nossa experiência profissional na Psiquiatria, temos podido verificar que um dos maiores sofrimentos mentais que temos presenciado é o sofrimento causado pelo Transtorno Obsessivo Compulsivo, o TOC. A vida da pessoa se torna em algo como uma tortura diária, um tormento terrível e que parece que jamais terá um fim.
 


São muitos e diversos os casos de TOC que temos tratado e não há palavras que possam expressar a gratificação íntima que sentimos ao ver alguém saindo dos sofrimentos do TOC. Vamos dar aqui alguns exemplos.

Havia um paciente que todas as vezes que ia se alimentar, colocava a comida em seu prato, pegava os talheres e quando ia começar a refeição o TOC se manifestava e ele retornava ao preparo inicial para a refeição, pois a sua posição não estava "correta" em sua mente, e isto por diversas vezes se repetia. Era algo terrível, pois em sua mente, caso a posição com a qual ele se preparava para iniciar a refeição não estivesse "correta", ameaças de tragédias lhe vinham à mente, e ele sentia uma compulsão irresistível de retornar novamente ao início da refeição, por vezes sem sequer conseguir terminar de levar o garfo à boca.  Acabava exausto, comendo a comida fria, e às vezes até chorando. Graças a Deus, seu sofrimento terminou. E nunca mais houve a presença desse comportamento.

Em outra situação, um paciente se assentava em seu carro, abaixava o freio de mão, mas de repente, algo lhe vinha à mente como que lhe dizendo que a posição ou o jeito de abaixar o freio de mão não estava "correto", e ele então levantava o freio de mão, abaixava o freio de mão, levantava o freio de mão, abaixava o freio de mão, enfim, um ritual de pensamentos obsessivos e de verificações da posição do freio de mão que podia chegar a até mais de 100 vezes! Sempre se atrasava, sua roupa se desarrumava toda, ficava todo suado, enfim, um tormento! Também nunca mais teve de passar por esse tormento.

Ainda um outro exemplo, este o de uma advogada que passava as noites trabalhando em seus processos, montando-os, escrevendo, corrigindo, pensando, estudando e tudo o mais que se faz necessário à montagem de um processo. Ao final, quando tudo já estava pronto, ela começava a reler o processo, e se encontrasse alguma coisa que não estivesse na "posição correta", rasgava e destruía tudo, e começava tudo de novo. Que tormento! E os exemplos são muitos.

 

Por esta razão, ou seja, pelos intensos sofrimentos que são causados pelo Transtorno Obsessivo Compulsivo que já presenciamos em nossa prática profissional, é que sentimos uma grande satisfação em tratar desses pacientes. A alegria da melhora do paciente é também a nossa alegria, pois o alívio é de tal ordem importante para essas pessoas que é como se começassem a viver de novo.

Em alguns casos a melhora é de 100%, e em outros casos podem permanecer algumas sequelas, mas a melhora se dá na maioria dos casos em que o tratamento adequado é instituído pelo especialista. É necessário, entretanto, ser dito que embora existam casos de remissão completa dos sintomas, lamentavelmente existe uma porcentagem de casos onde este transtorno é bastante resistente ao tratamento.

 

Há, por último, casos de TOC bastante graves e incapacitantes e que não respondem nem ao tratamento com medicamentos, nem à psicoterapia orientada para o tratamento do TOC, e nem à combinação de ambos. Para estes casos, cresce, a nível internacional, o uso da psiconeurocirurgia (Capsulotomia; Radiocirurgia-Gamma Knife¹), uma opção reservada para casos de TOC graves e ultra-extremos, técnica esta somente indicada para uma restritíssima parcela de casos de TOC grave e demonstradamente resistentes a todos os tratamentos frequentemente utilizados.


 

Sinais, Sintomas e Apresentações do TOC


O Transtorno Obsessivo Compulsivo possui diversas e variadas apresentações da doença, sendo os grupos nos quais se inserem estas variações três principais.


O primeiro é quando predominam os pensamentos obsessivos. Estes pensamentos são intrusivos e invasivos, interrompendo as atividades a que a pessoa está se dedicando, ou interrompendo seu descanso. Não são poucas as vezes em que a pessoa sente um desejo incontrolável de pensar a mesma coisa dezenas, ou até centenas de vezes, até que os pensamentos obsessivos acalmem. Porém, este "alívio" é algo apenas temporário.

 


A segunda situação diz respeito aos rituais de verificação, como lavar as mãos diversas vezes, limpar determinada parte do corpo muitas vezes, retornar dezenas de vezes para se certificar de que fechou a porta, ou desligou o gás, ou fechou as janelas, enfim, são rituais de verificação repetitivos e terrivelmente atormentadores.

 

 

São também frequentes as arrumações sem fim. Arruma-se o armário diversas vezes, limpa-se a casa muitas vezes, recomeça-se a limpeza se "não ficou bom", reinicia-se tudo de novo, e assim lá se vai a qualidade de vida do paciente.



A terceira forma de apresentação frequente deste transtorno é a forma mista, onde além dos pensamentos obsessivos e repetitivos também estão presentes os rituais de verificação (ou a necessidade de certeza).
 

As Causas do TOC


As causas do TOC podem ser várias, todavia temos verificado existirem dois fatores que estão quase sempre presentes nesses casos: Um componente hereditário (familiar) e conflitos internos. E sobre esses conflitos internos, não são poucas as vezes em que esses conflitos tiveram início na infância. Há autores que apontam para estes conflitos internos como estando entre os principais fatores desencadeantes do TOC.
 

O TOC tem Cura? Qual o Tratamento do TOC?


Uma abordagem psicoterapêutica, especificamente voltada para o tratamento do TOC, em grande parte dos casos é necessária juntamente com a utilização de medicamentos que são comprovadamente úteis para o tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo.


O papel do Psiquiatra é selecionar a medicação adequada para cada caso e trabalhar na orientação do paciente a fim de que ele saiba como lidar com os pensamentos obsessivos e com os rituais, ou seja, como enfrentar os “comandos do TOC”.
 


O Transtorno Obsessivo Compulsivo é uma condição psicopatológica crônica. Lamentavelmente, o que até agora se dispõe em termos estatísticos é insuficiente para que se façam afirmações definitivas sobre as evoluções deste transtorno psiquiátrico (se pode haver cura definitiva ou não).
Há casos de remissão completa do quadro clínico, porém também há casos onde este transtorno se apresenta de modo severamente resistente ao tratamento. Porém, a Psiquiatria ainda carece de mais conhecimentos sobre diversos aspectos deste que é um dos mais enigmáticos transtornos que existem no território da Psicopatologia.

Em Medicina, há muitas doenças que desaparecem, por completo, após esta ou aquela medicação ter sido usada. Infelizmente, isto não parece poder se aplicar ao TOC, sendo este um transtorno psiquiátrico que requer uma ativa participação do paciente em seu tratamento, sob orientação profissional especializada.

Muitos portadores de TOC podem facilmente perceber que seus pensamentos obsessivos são irracionais, sem sentido, porém a única maneira que conhecem para poderem aliviar sua ansiedade, angústia e desconforto é através da execução dos chamados rituais do TOC (repetir pensamentos, verificações, buscar certezas repetidamente, contar, etc.), o que pode resultar em um “alívio” apenas temporário. Este comportamento diante do TOC frequentemente apenas agrava a doença podendo fortalecer ainda mais a obsessão em um angustiante círculo de pensamentos e de rituais que parece não ter fim.


Uma combinação eficiente de psicofarmacoterapia (o tratamento com medicamento) + um tratamento psicoterápico especificamente orientado para o tratamento do TOC, costuma ser uma ótima opção para o tratamento deste transtorno. E quanto mais cedo se buscar tratamento, melhor!

 

¹Gamma Knife Radiosurgery (Radiocirurgia com o Gamma Knife) no Transtorno Obsessivo Compulsivo. É um tratamento (para casos gravíssimos e resistentes a todos os demais tratamentos) do TOC. Esta técnica foi primeiramente concebida com a finalidade de tratar tumores cerebrais, sendo correntemente utilizada para este fim, tendo-se estendido o seu uso para o tratamento do Mal de Parkinson, Epilepsia e para o controle de dores severas, onde a área cerebral envolvida pode ser identificada e lesionada pela psiconeurocirugia (também chamada, nestes casos, de psicocirurgia) melhorando os sintomas. O procedimento não requer a abertura do crânio e consiste em uma técnica onde múltiplos raios-gama atravessam o crânio e atingem uma área com ultraprecisão cirúrgica (região alvo). Importante ressaltar que a psicocirurgia com o Gamma Knife nada tem a ver com a Lobotomia do século passado.

 

 

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Dr Eduardo Adnet - Médico Psiquiatra
Especialista Titulado Pela Associação Brasileira de Psiquiatria e
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